terça-feira, 21 de outubro de 2014

devaneio

Eu devia ter ido
faz tempo
Eu devia ter te deixado pra lá
já faz tempo demais

Porque de todos os erros
mais inexplicáveis,
você foi o pior

De todas as formas
mais concretas
de paixão
você foi a mais dura
a mais pesada
a mais volúvel
a mais difícil
a mais cruel

E a culpa
é tão minha
por perceber que já era tempo
e mesmo assim insistir

A culpa é toda minha
por esquecer
de me amar

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

quimera

Eu devia estar fazendo tantas coisas
tantas escolhas
tantas bobagens
tantas obrigações

Hoje é um daqueles dias
com cara de setembro
com cara de primavera que chega
e te prende na janela
distante demais
com sede de ar

Tô esperando
aquela flor que você prometeu
Não quero buquê
só quero amor
só quero flor

Hoje é um daqueles dias
que gritam
de longe
de perto
de todos os cantos
que já passa da hora
de voar

Eu devia estar fazendo tantas coisas
tantas,
mas tantas coisas
que já nem importa mais

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

seu velho descarte

faço a minha parte,
não quero mais ser
seu velho descarte,
seu sorriso estragado,
seu beijo roubado
que pesa e me entorta a cada nova confusão
minha
sua
nossa

sua,
é isso
tão sua
toda sua
ridiculamente sua

estupidamente nua
vestida de desejos secretos
indiscretos
segredos
mentiras pela metade
meias verdades

tão humana
sujeita a ser comum
enxerga graça no seu furacão
espera a sua decisão
fica pra fora ou pode entrar?

não quero mais
não posso mais
pela metade é quase que nada
uma vez é nenhuma vez

"fica pra fora
ou pode entrar?"

domingo, 7 de setembro de 2014

pra mim

Nem vem que não tem,
não mais.
Nem vem com essa de querer fazer direito
dessa vez
mais uma vez
pela última vez,
nem vem.

Não volta,
não bate na minha porta
Nem vem,
não me amola
não demora esse tempo todo aqui
que nem meu lado bonzinho suporta mais

Te esperei feito tonta
te desejei feito louca
te cuidei feito boba
e me arrependo de cada pedaço entregue meu

Porque carinho desperdiçado
é uma pena,
meu bem.
Então,
nem vem
nem hoje
nem amanhã
que dessa vez é pra valer
é pro meu bem

Dessa vez,
não é nada pra você
Dessa vez,
é tudo pra mim
por mim
só pra mim

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

girassol

Já vou,
mas prometo que volto
do avesso,
sem jeito,
com graça
Sou daquelas que disfarça
esse tipo de sensação

Demoro,
mas volto
encosto
minha pele na tua
pra não poder mais esquecer

Só peço
presente
com cheiro,
textura
e sentimento

Só quero
de você
um girassol

Pra que eu guarde
no fundo da gaveta
e só volte a lembrar
quando decidir limpar

E, num futuro perdido
farei uma faxina
no meu coração
Dessa vez só guardo o que é bom

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

pequenos delitos de amor

Hoje até o sol exagerou
assim não dá
Que vista linda
desse mar
desse céu
desse seu olhar
Nunca sei se tá cansado
admirado
apaixonado
Me vira de ponta cabeça
mais uma vez
Eu lembro bem
do gosto que tem
você
Meu bem,
vem
me encontra
me encanta
me lança
nessa dança admirável
de carinhos no escuro
de delicadeza secreta
de pequenos delitos de amor

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

maré alta

Fiquei presa
em cima desse cais
Não me deixa cair
assim

Me encanta com palavras difíceis,
aquelas outras já ficaram batidas demais
Levanta meu astral com gestos sutis,
grandes atuações não enganam mais

Me perdi no meio de tantos barcos,
atraquei por entre as pedras
Olha só o que você fez,
olha só o que eu fiz comigo

Se quiser,
rema contra a maré
Mas não polui o mar
com essas palavras vomitadas

Não sobe aqui, não
que eu vou acabar por me afundar
de vez
de tanta leveza

Abaixa a maré

terça-feira, 19 de agosto de 2014

desperdício de amor

Estamos desperdiçando arrepios,
cometendo pequenos delitos de amor
Estamos estagnados nessa rotina pequena,
com medo de mais um arranhão

Já compramos a passagem de volta,
mas não temos coragem de ir
Então, vai
Eu não quero ter que ir sozinha

E você que me acende desse seu jeito
não solta, não dissolve,
não deixa fluir

Que pena,
meu amor.
Meu coração é grande,
mas meu desejo de liberdade é maior...

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

chamego dos bons

Quero doses diárias de paixão sem futuro
Do meu jeito vulcânico,
sem sentido e inteiro,
coberto de chamego dos bons.

Descompesado,
inseguro,
extenso e sutil

Com toque
Com beijo
Com cheiro
Com jeito de gente que não sabe gostar

Me deixa
Me beija
Me aqueça
Me esqueça
Mas não me deixa passar

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

sim

(ou a história em verbos da vez em que eu disse sim)

Sou
Quero
Escondo
Admito
Cedo
Beijo
Desejo
Gosto
Conheço
Adoro
Descontrolo
Sinto
Entrego
Sofro
Escondo
Fui.

não

Não digo nada,
não vejo nada,
não sinto nada.
Ah, não... Não sinto.

Não quero,
não posso,
não preciso.

Se não disfarço,
apresso o passo,
cruzo os braços
e te deixo ir.

E em seguida,
abraço a vida,
danço a alegria
de não ter a sua platéia pra me incomodar

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

agosto com jeito de infinito particular

Que bonito esse tal de amor,
essa coisa leve que ainda não conheci.
Sentimento pesado e volúvel,
essa face indiscreta da complexidade sutil.

Te dou de presente um aperto no peito,
e te peço desculpa se apertar demais.
Sabe como é, já é agosto
e não guardo esse gosto por mais tempo, não.

Até posso dar carinho,
beijo com jeito de infinito particular
Mas só se você prometer
não devolver, nem pensar.

Respeita meu canto sozinho,
meu pedaço de egoísmo
Já que de perto é sempre arriscado demais

quinta-feira, 31 de julho de 2014

insuficiente

Fala demais porque não tem nada pra dizer,
nada demais.
Deposita nos versos as palavras mal ditas,
malditas.

Soletra meia dúzia de mentiras mal elaboradas,
passa batom pra ver se passa a dor,
delineia os olhos com lápis à prova d'água
e sorri.

Hipocrisia comum, óbvia.
Geração "moderninha", de mentirinha.
Profunda e desnuda, vil.
Tradicional até demais.

Vamos festejar a maldade inocente,
esquecer quão descartáveis podemos ser.
Vamos nadar contra a corrente,
e criar uma nova maré.

E assim por diante, até que nenhuma maré seja suficientemente original.

sábado, 26 de julho de 2014

volúpia

Hoje deu pra me dar saudade
desse beijo com gosto de cigarro,
desse beijo com jeito de pecado,
desse sentimento camuflado.

Hoje deu vontade de conversar
como se tivesse algo pra dizer.
Deu saudade das entrelinhas,
das vontades mais implícitas.

Hoje me deu acesso de sensibilidade,
overdose de volúpia.
Coisa boba, assim
coisa breve.

desejo de sexta-feira

Alguém chama de volta
aquele homem
com cara de sexta-feira

Alguém faz ele lembrar
que hoje não é domingo

Porque se for pra viver amenidades,
Já tenho essa gente toda pra me acompanhar...

terça-feira, 24 de junho de 2014

à mar

Deixa estar
Deixa passar
Pelo caminho mais difícil
Pelo mar

Vamos variar
Vamos brincar
Vamos à mar

Vem me testar
Vem me beijar
Vem me tocar
Vem.

Flutua. Aprofunda. Dilui.

Eu sei que assusta
Eu tenho medo também
Eu sei que é fundo
Profundo.

Mas vamos nadar
Vamos jogar
Vamos à mar

segunda-feira, 23 de junho de 2014

flores de plástico

É por isso
que deixo
as flores que ganho
murcharem

Mesmo as de plástico
Efêmeras, perfeitas, sutis.
Mesmo essas falsas
que você me deu.

Porque esse é o problema das flores falsas,
meu bem.
São perfeitas.
Sem marcas, arranhões, partes mortas - ou vivas.
Iludem.

E quando a saudade bate à porta,
eu sinto falta do perfume
do cheiro, da textura imperfeita
do pedaço estragado

Que ingenuidade a minha
de acreditar
que flores de plástico
poderiam murchar

sábado, 21 de junho de 2014

só acompanhada

Apaga esse cigarro,
não me deixa de lado
sem avisar

Não mente
desse jeito bonito,
codificado

Não me joga fora,
hoje não.
Deixa o seu lado confuso
para amanhã.

Você sabe que eu não tenho medo
de ficar sozinha.
Eu tenho mais medo
de ser uma só acompanhada.

Você me usou,
abusou,
cansou.

Você sabe que eu não vou falar,
você sabe que eu vou guardar
tudo.

Tudo isso é tão inútil,
tão idiota,
tão descartável,
você sabe bem.

Mas, só por hoje,
apaga esse cigarro,
Não me deixa de lado,
me deixa entrar

domingo, 15 de junho de 2014

fingir

Vamos fingir que nada disso aconteceu, vamos esquecer todos esses atos falhos, esses prazeres deliciosos que se tornam angústias muito mais complexas do que deveriam ser. Por gentileza, não me deixa chegar perto de você, eu quero uma distância segura. Me deixa permanecer longe o suficiente para nem sequer sentir teu cheiro.
Eu sei que sou confusa. Sou dessas que choram sorrindo e que buscam em amores esquecidos alegrias raras. Gosto de histórias inacabadas, de vírgulas enormes que ficam ecoando no universos eternamente insatisfeito da minha mente.
Não me deixa mal. Quer dizer, não me deixa mal agora. Você sabe que eu escondo essa loucura, e agora decidi que te esqueço de vez. Afinal, ninguém é normal de perto, e quer loucura maior do que desapegar de um prazer desses?
Hoje eu deitei no chão da minha livraria preferida. Vi homens barbudos, com óculos enormes e livros fascinantes em mãos. Os admirei durante muito tempo, e inventei motivos para não responder seus olhares. Meia dúzia de jovens alternativos não me interessam dessa vez. Há algo errado, não vê?
Como naquelas vezes em que eu recusei beijos irrecusáveis porque, convenhamos, eles nem eram tão interessantes. Até aquele que admira Henry Thoreau. Ou aquele que acampa nos fins de semana. Ou ainda assim aquele que é ator, músico e poeta. Alguns deles têm dentes bonitos, sorrisos sinceros, bom humor, beleza interior, olhares profundos, beleza exterior e até mesmo talentos ocultos. Mas nenhum tem aquele espacinho entre os dentes, que você tem.
Me peguei te olhando de um jeito tão estranho. Senti aquele frio na barriga que já tinha esquecido que existia. Parece que, pela primeira vez em muito tempo, eu senti algo novo. Não apenas simulações pré-programadas de sensações conhecidas. E isso, meu bem, é um perigo.
Então, vamos esquecer que tudo isso aconteceu. Vamos dizer que não existe nada. Vamos viver como todas as outras pessoas. Vamos fingir.
Porque fingimento é melhor do que afeição, hoje em dia.

domingo, 8 de junho de 2014

desabafo de um número comum

Como é duro ser comum,
um mero ser humano
jogado nesse mar de coisas comuns,
mastigadas.

Como é cansativo
ver todos esses homens cegos,
líderes de uma espécie
tão duvidosamente superior.

Fazer parte da natureza
não parece ser tão ruim assim.
Confesso que acho até mais interessante
do que tanques de guerra e imóveis à venda.

Que sorte que hoje está escuro,
assim não preciso lidar
com esses sorrisos amarelos com clareamento
e com esses implantes de felicidade comprada.

Assim, não preciso encarar
essa senhora que tem a cara puxada
e que morre de medo
de morrer

Não tenho que conversar
Com essa menina que saiu da capa
Daquela revista que li no salão
E pedi para ficar igual

Não preciso explicar
para esse homem de testa rígida
que não servir para nada "de verdade"
não é assim tão deplorável.

Pelo menos, assim
não vou ouvir meu professor
ditar notas e números
que me classificam.

Porque, aqui
eu sou um número.
Preciso de uma função
que acrescente algo nisso tudo,
nesse nada.

E, no meio de todos esses números
dizem que eu ainda tenho que ser especial.
Que tem gente que significa mais do que outras,
que tem números mais importantes que outros.

Pena que eu sou número
tão comum
quanto o presidente do país
e a minha paixão de infância.

Pena que
nem meu número da sorte
significa alguma coisa
no fim das contas.

beco sem saída

Luzes piscando em círculos coloridos,
postes de concreto, músicas de amor.
Histórias contadas, criadas.
Intensidade nas relações mais superficiais.

Pessoas perdidas, sozinhas, acompanhadas,
inteiras.
Daquele jeito bonito que falta um pedaço.
Daquele jeito que eu gosto.

Interessante observar a menina descolada,
deslocada
chorando escondida no banheiro dos fundos
Enquanto o menino indiferente,
carente
ensaia socos e brigas por atenção

Beijos e carinhos no escuro,
mundos escondidos através dos muros.
Pouco importa,
porque eles vão dormir sozinhos essa noite

Ou, quem sabe, acordar.
Dormir nos braços de alguém
que vai sair em silêncio de manhã.
Melhor assim.

Então não me julgue por fugir de fininho.
Se eu não gostasse de você,
permaneceria a manhã inteira
Mas eu gosto... Ah, eu gosto

E não quero ter que lidar
com essa sensação errada
de ter que te dar bom dia
e sentir saudades depois.

Porque, se eu te deixar entrar
nesse beco sem saída
vou me sentir culpada depois.

Culpada por tirar de você
a complexidade interessante
de não me conhecer.

domingo, 1 de junho de 2014

sagitariana

Quero me apaixonar
por um ladrão de bicicletas,
com barba por fazer
e um violão a tiracolo.

Quero um melhor amigo
com tênis sujos e cabelo despenteado,
que me incomode constantemente,
mas que me leve para viajar.

Quero um emprego
que me permita trabalhar
de cabeça para baixo,
se der vontade.

Quero um futuro
que não vire passado
rápido demais.

Porque se fosse pra sempre
poderíamos sonhar acordados,
uma vida inteira
sem decepções.

Quero um sonho
daquele tipo
que a gente sonha
em ter um dia

Quero uma cabana
em frente à praia.
Cheia de gente,
gente de verdade.

Quero respeito,
respeito mútuo.
Alegria jovem,
despreocupação.

Quero descaso, talvez.
Amores roubados,
partidos, revirados,
mas vividos.

Quero coisas inteiras,
pedaços enormes.
Tudo bem se sobrar,
melhor do que pela metade.

Quero férias,
férias de tudo,
férias de uma sociedade apressada demais,
de um mundo que não olha mais pro lado.

Quero que me olhem nos olhos,
bem lá no fundo
Antes que digam que sou utópica,
sagitariana demais.

domingo, 25 de maio de 2014

sentido

Qual é o sentido
de dar sentido
pra tudo?

Pode ser que nada exista
de fato
e que tudo o que tem sentido
seja mentira.

Que tal
dar uma volta
e brincar de inventar um mundo
de verdade?

As pessoas são tão mais legais
de longe
E tão mais interessantes
de perto

Não muda, não.
Só inverte as coisas,
muda de lugar.
Assim não vira tédio nem desinteresse.

É bonito, isso
esse jeito cíclico que a vida é.
Fazer parte da natureza
mesmo que desse jeito falho.

E o mais bonito
é perceber que não há,
nem nunca houve
sentido algum.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

desfazendo nós

Fios de cabelo loiro no teu chão,
loiros naturais.
Meus fios que um dia já foram ruivos,
meus fios que um dia já formaram cachos.

Fico agora,
passando as horas
e desfazendo nós,
nos desfazendo.

Está desfeito, assim,
como estão meus antigos caracóis,
minha alegria fácil de criança.
Desfeito pela metade.

Porque essa dor de cabeça
acerca da minha dor na coluna
é tão irreal quanto a sua dor
no lado direito do peito.

Faz silêncio, um minuto.
Eu gosto de ouvir respirações,
parece até que o tempo parou.

Vamos parar o tempo
por uns segundos
antes que ele se desfaça
e se torne uma daquelas coisas óbvias.

Depois, me leva no parque,
mas tem que ser de noite
De dia parece filme da sessão da tarde
com gente feliz de mentira.

Afinal, eu gosto de coisa boa
que termina mal
e que se refaz.

Mas, se for pra esbanjar sofrimento,
joga fora.
Porque, pior do que isso
só menosprezo.

Não quero parar pra pensar,
pensar azeda demais.

Ainda vale a pena desfazer nós,
se tiver paixão.

Caso contrário,
desfaz de vez.
Sem graça, sem alma, sem poesia.

domingo, 11 de maio de 2014

inversão

Eu não quero
um cadeado,
uma aliança no dedo,
um beijo escancarado.

Eu não quero
um amor de novela
com final feliz
e uma vida inteira de tédio.

Eu não preciso
de alguém pra me amar
intensamente
e depois me odiar
ou me perseguir.

Eu detesto
essa mudança de tratamento
por causa de um pedido,
por uma nova obrigação.

Eu não suporto a ideia
de alguém do meu lado
por força do hábito
ou por carência pessoal.

Porque legal mesmo
é quando eu nem sei.
Assim, pelo menos
ninguém conhece meu outro lado.

Odeio cena
feita para a platéia.
Eu gosto de cena
sutil.

Eu gosto de beijos escondidos,
olhares descontraídos,
clima leve no ar
e uma barreira moldável.

Eu gosto
daqueles que me fazem
sentir saudade
sem que eu me dê conta.

Eu gosto
daqueles que não sabem mentir.
Assim, eu percebo
que estou olhando para alguém.

Eu gosto mesmo
de quem segura firme a minha mão
e hesita um pouco
antes de me beijar.

eu tenho medo do escuro

Afinal,
qual é a graça
da vida
no escuro?

Acende a luz,
eu quero ver você sorrir.
Porque um sorriso tem que ser visto,
eu acho.

Contagia os outros
com essa risada torta,
mas não faz parecer
que é nossa obrigação ser feliz.

Meu bem,
rasga logo os versos,
desapega desse caderno
de folhas sem linhas.

As páginas em branco
me incomodam.
As rabiscadas, então
são tão ruins que me fazem bem.

Como todas aquelas outras coisas da vida
Tão confusas, tão perdidas
tão misturadas
que fazem a dor parecer ter cor.

O seu defeito
é não me deixar perceber
os meus equívocos
enquanto está por perto.

E um dos meus
é me arrepender
todo domingo de manhã
e fazer de novo

E de novo, de novo, de novo, e de novo.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

disco de vinil

Se ficar tarde,
coloca um LP pra tocar
e eu garanto, 
garanto mesmo
que vai passar.

E se estiver cedo demais,
muda o disco de lado,
acende um cigarro
e esquece um pouco.

Esquece as coisas,
esquece a vida,
esquece quase tudo.

Por trás das minhas unhas roídas
pode existir um pouco de sangue
daquele raro que vibra,
que vibra até demais.

Ficar sozinha ouvindo
discos de Vinil
faz com que eu me sinta
menos só.

E todo dia de manhã
coloco os fones de ouvido
e fico observando os olhares de sono,
as risadas, os sapatos e os penteados,
uma sala vazia.

Por isso, coloca um LP pra tocar.
Tudo bem se chiar um pouco,
contanto que toque de algum jeito
que te toque

E, se chover
toca mais.
Se fizer sol, 
espera ele iluminar seus olhos
pra depois se pôr.

E, se puder
que se ponha sob mim.

domingo, 4 de maio de 2014

reflexo

Eu provavelmente não sou a mulher mais bonita que você já viu.
Nem a mais inteligente, mais sexy ou mais interessante.
Eu tenho defeitos incompreensíveis e qualidades compreensíveis demais.

Eu procuro significado nas coisas
e depois fujo delas.
Eu me sinto estranha em lugares lotados,
mas os adoro, porque me lembram a solidão.

Eu escrevo e não deixo ninguém ler,
faço músicas que ninguém vai escutar,
fico horas ouvindo o que os outros têm para dizer
e só falo coisas inúteis.

Eu sou viciada na complexidade do ser humano,
apesar de morrer de medo dela.

Sou apaixonada pelas histórias dos outros,
adoro animais, porque eles não mentem
e tenho dentes bonitos,
mas um pouco tortos.

Sou alta demais para usar salto alto,
mas tudo bem,
porque eu não usaria de qualquer jeito.

Estou cercada pelas pessoas erradas
ou talvez esteja fora do lugar.

Meu melhor amigo é meu violão
e confesso que fico esperando
as flores que ganho
murcharem.

Amo andar sozinha pelas ruas,
sou apaixonada pela solidão
e não é que eu seja antissocial,
é só que eu gosto demais das pessoas.

Talvez seja por isso
que eu resolvi
assim, do nada
ir embora.

sábado, 3 de maio de 2014

arena

Queria ser um beija-flor
Assim poderia, quem sabe
beber goles profundos de amor
Sem perceber

Queria ser, também
um barco de papel
Só para poder boiar no reflexo do céu
E afundar assim.

Porque a vista aqui de baixo é boa demais
E olhar para cima é quase raro, hoje em dia

Já tenho esse chão para pisar
E por que insistir nele
Se só serve para me lembrar das coisas que eu já sei?

Terra me cansa,
Água me assusta,
Ar me encanta,
E fogo sou eu

Talvez por isso,
seja melhor
ficar um tempo longe de tudo
que posso incendiar.

sábado, 22 de fevereiro de 2014

palavras soltas de uma solidão acompanhada

De todas as coisas mais profundas que jamais quis enxergar, meu amor perdido foi de fato a mais difícil.
Madrugadas de maio nunca serão como as de dezembro, e poemas de amor tantas vezes rasgados.
Escapismo sincero, utópico, talvez.
Lembranças distantes das quais me recordo com clareza.
Músicas alegres que ainda me fazem chorar.

Alma sensível.
Alma fugitiva, carente e extensa.
Indiferenças fingidas.
Arrependimento de um laço deixado para trás.
Escolhas modestas e egos inflados: realidade indesejável pela qual optei.

Se eu pudesse, só por um dia, viajar no tempo e reviver abraços...
Ai, se eu pudesse!
Seria um alívio tão prejudicial quanto aquela bebida de 2012.

Se eu pudesse encontrar
Ou melhor, reencontrar meus sonhos de criança,
Talvez pudesse viver de verdade.

Seria bom substituir o azul pelo vermelho de vez em quando.
Seria bom não sentir tanto medo de mim mesma.

Abraço de amigo, abraço de pai e abraço de avô.
Por que tão difícil?
E, novamente, amores perdidos.
Narcisismos perdidos, desejos perdidos e verdades perdidas.
Uma folha de outono em pleno verão.

Um choro guardado,
Uma postura forçada
E um sorriso nervoso.

Saudades passa,
Mas volta
Principalmente nas horas de insônia e nos espaços lotados.

Por que será que me sinto tão só, toda sexta-feira, às seis da tarde, na estação da Sé?