terça-feira, 24 de junho de 2014

à mar

Deixa estar
Deixa passar
Pelo caminho mais difícil
Pelo mar

Vamos variar
Vamos brincar
Vamos à mar

Vem me testar
Vem me beijar
Vem me tocar
Vem.

Flutua. Aprofunda. Dilui.

Eu sei que assusta
Eu tenho medo também
Eu sei que é fundo
Profundo.

Mas vamos nadar
Vamos jogar
Vamos à mar

segunda-feira, 23 de junho de 2014

flores de plástico

É por isso
que deixo
as flores que ganho
murcharem

Mesmo as de plástico
Efêmeras, perfeitas, sutis.
Mesmo essas falsas
que você me deu.

Porque esse é o problema das flores falsas,
meu bem.
São perfeitas.
Sem marcas, arranhões, partes mortas - ou vivas.
Iludem.

E quando a saudade bate à porta,
eu sinto falta do perfume
do cheiro, da textura imperfeita
do pedaço estragado

Que ingenuidade a minha
de acreditar
que flores de plástico
poderiam murchar

sábado, 21 de junho de 2014

só acompanhada

Apaga esse cigarro,
não me deixa de lado
sem avisar

Não mente
desse jeito bonito,
codificado

Não me joga fora,
hoje não.
Deixa o seu lado confuso
para amanhã.

Você sabe que eu não tenho medo
de ficar sozinha.
Eu tenho mais medo
de ser uma só acompanhada.

Você me usou,
abusou,
cansou.

Você sabe que eu não vou falar,
você sabe que eu vou guardar
tudo.

Tudo isso é tão inútil,
tão idiota,
tão descartável,
você sabe bem.

Mas, só por hoje,
apaga esse cigarro,
Não me deixa de lado,
me deixa entrar

domingo, 15 de junho de 2014

fingir

Vamos fingir que nada disso aconteceu, vamos esquecer todos esses atos falhos, esses prazeres deliciosos que se tornam angústias muito mais complexas do que deveriam ser. Por gentileza, não me deixa chegar perto de você, eu quero uma distância segura. Me deixa permanecer longe o suficiente para nem sequer sentir teu cheiro.
Eu sei que sou confusa. Sou dessas que choram sorrindo e que buscam em amores esquecidos alegrias raras. Gosto de histórias inacabadas, de vírgulas enormes que ficam ecoando no universos eternamente insatisfeito da minha mente.
Não me deixa mal. Quer dizer, não me deixa mal agora. Você sabe que eu escondo essa loucura, e agora decidi que te esqueço de vez. Afinal, ninguém é normal de perto, e quer loucura maior do que desapegar de um prazer desses?
Hoje eu deitei no chão da minha livraria preferida. Vi homens barbudos, com óculos enormes e livros fascinantes em mãos. Os admirei durante muito tempo, e inventei motivos para não responder seus olhares. Meia dúzia de jovens alternativos não me interessam dessa vez. Há algo errado, não vê?
Como naquelas vezes em que eu recusei beijos irrecusáveis porque, convenhamos, eles nem eram tão interessantes. Até aquele que admira Henry Thoreau. Ou aquele que acampa nos fins de semana. Ou ainda assim aquele que é ator, músico e poeta. Alguns deles têm dentes bonitos, sorrisos sinceros, bom humor, beleza interior, olhares profundos, beleza exterior e até mesmo talentos ocultos. Mas nenhum tem aquele espacinho entre os dentes, que você tem.
Me peguei te olhando de um jeito tão estranho. Senti aquele frio na barriga que já tinha esquecido que existia. Parece que, pela primeira vez em muito tempo, eu senti algo novo. Não apenas simulações pré-programadas de sensações conhecidas. E isso, meu bem, é um perigo.
Então, vamos esquecer que tudo isso aconteceu. Vamos dizer que não existe nada. Vamos viver como todas as outras pessoas. Vamos fingir.
Porque fingimento é melhor do que afeição, hoje em dia.

domingo, 8 de junho de 2014

desabafo de um número comum

Como é duro ser comum,
um mero ser humano
jogado nesse mar de coisas comuns,
mastigadas.

Como é cansativo
ver todos esses homens cegos,
líderes de uma espécie
tão duvidosamente superior.

Fazer parte da natureza
não parece ser tão ruim assim.
Confesso que acho até mais interessante
do que tanques de guerra e imóveis à venda.

Que sorte que hoje está escuro,
assim não preciso lidar
com esses sorrisos amarelos com clareamento
e com esses implantes de felicidade comprada.

Assim, não preciso encarar
essa senhora que tem a cara puxada
e que morre de medo
de morrer

Não tenho que conversar
Com essa menina que saiu da capa
Daquela revista que li no salão
E pedi para ficar igual

Não preciso explicar
para esse homem de testa rígida
que não servir para nada "de verdade"
não é assim tão deplorável.

Pelo menos, assim
não vou ouvir meu professor
ditar notas e números
que me classificam.

Porque, aqui
eu sou um número.
Preciso de uma função
que acrescente algo nisso tudo,
nesse nada.

E, no meio de todos esses números
dizem que eu ainda tenho que ser especial.
Que tem gente que significa mais do que outras,
que tem números mais importantes que outros.

Pena que eu sou número
tão comum
quanto o presidente do país
e a minha paixão de infância.

Pena que
nem meu número da sorte
significa alguma coisa
no fim das contas.

beco sem saída

Luzes piscando em círculos coloridos,
postes de concreto, músicas de amor.
Histórias contadas, criadas.
Intensidade nas relações mais superficiais.

Pessoas perdidas, sozinhas, acompanhadas,
inteiras.
Daquele jeito bonito que falta um pedaço.
Daquele jeito que eu gosto.

Interessante observar a menina descolada,
deslocada
chorando escondida no banheiro dos fundos
Enquanto o menino indiferente,
carente
ensaia socos e brigas por atenção

Beijos e carinhos no escuro,
mundos escondidos através dos muros.
Pouco importa,
porque eles vão dormir sozinhos essa noite

Ou, quem sabe, acordar.
Dormir nos braços de alguém
que vai sair em silêncio de manhã.
Melhor assim.

Então não me julgue por fugir de fininho.
Se eu não gostasse de você,
permaneceria a manhã inteira
Mas eu gosto... Ah, eu gosto

E não quero ter que lidar
com essa sensação errada
de ter que te dar bom dia
e sentir saudades depois.

Porque, se eu te deixar entrar
nesse beco sem saída
vou me sentir culpada depois.

Culpada por tirar de você
a complexidade interessante
de não me conhecer.

domingo, 1 de junho de 2014

sagitariana

Quero me apaixonar
por um ladrão de bicicletas,
com barba por fazer
e um violão a tiracolo.

Quero um melhor amigo
com tênis sujos e cabelo despenteado,
que me incomode constantemente,
mas que me leve para viajar.

Quero um emprego
que me permita trabalhar
de cabeça para baixo,
se der vontade.

Quero um futuro
que não vire passado
rápido demais.

Porque se fosse pra sempre
poderíamos sonhar acordados,
uma vida inteira
sem decepções.

Quero um sonho
daquele tipo
que a gente sonha
em ter um dia

Quero uma cabana
em frente à praia.
Cheia de gente,
gente de verdade.

Quero respeito,
respeito mútuo.
Alegria jovem,
despreocupação.

Quero descaso, talvez.
Amores roubados,
partidos, revirados,
mas vividos.

Quero coisas inteiras,
pedaços enormes.
Tudo bem se sobrar,
melhor do que pela metade.

Quero férias,
férias de tudo,
férias de uma sociedade apressada demais,
de um mundo que não olha mais pro lado.

Quero que me olhem nos olhos,
bem lá no fundo
Antes que digam que sou utópica,
sagitariana demais.