Como é duro ser comum,
um mero ser humano
jogado nesse mar de coisas comuns,
mastigadas.
Como é cansativo
ver todos esses homens cegos,
líderes de uma espécie
tão duvidosamente superior.
Fazer parte da natureza
não parece ser tão ruim assim.
Confesso que acho até mais interessante
do que tanques de guerra e imóveis à venda.
Que sorte que hoje está escuro,
assim não preciso lidar
com esses sorrisos amarelos com clareamento
e com esses implantes de felicidade comprada.
Assim, não preciso encarar
essa senhora que tem a cara puxada
e que morre de medo
de morrer
Não tenho que conversar
Com essa menina que saiu da capa
Daquela revista que li no salão
E pedi para ficar igual
Não preciso explicar
para esse homem de testa rígida
que não servir para nada "de verdade"
não é assim tão deplorável.
Pelo menos, assim
não vou ouvir meu professor
ditar notas e números
que me classificam.
Porque, aqui
eu sou um número.
Preciso de uma função
que acrescente algo nisso tudo,
nesse nada.
E, no meio de todos esses números
dizem que eu ainda tenho que ser especial.
Que tem gente que significa mais do que outras,
que tem números mais importantes que outros.
Pena que eu sou número
tão comum
quanto o presidente do país
e a minha paixão de infância.
Pena que
nem meu número da sorte
significa alguma coisa
no fim das contas.
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