Vamos fingir que nada disso aconteceu, vamos esquecer todos esses atos falhos, esses prazeres deliciosos que se tornam angústias muito mais complexas do que deveriam ser. Por gentileza, não me deixa chegar perto de você, eu quero uma distância segura. Me deixa permanecer longe o suficiente para nem sequer sentir teu cheiro.
Eu sei que sou confusa. Sou dessas que choram sorrindo e que buscam em amores esquecidos alegrias raras. Gosto de histórias inacabadas, de vírgulas enormes que ficam ecoando no universos eternamente insatisfeito da minha mente.
Não me deixa mal. Quer dizer, não me deixa mal agora. Você sabe que eu escondo essa loucura, e agora decidi que te esqueço de vez. Afinal, ninguém é normal de perto, e quer loucura maior do que desapegar de um prazer desses?
Hoje eu deitei no chão da minha livraria preferida. Vi homens barbudos, com óculos enormes e livros fascinantes em mãos. Os admirei durante muito tempo, e inventei motivos para não responder seus olhares. Meia dúzia de jovens alternativos não me interessam dessa vez. Há algo errado, não vê?
Como naquelas vezes em que eu recusei beijos irrecusáveis porque, convenhamos, eles nem eram tão interessantes. Até aquele que admira Henry Thoreau. Ou aquele que acampa nos fins de semana. Ou ainda assim aquele que é ator, músico e poeta. Alguns deles têm dentes bonitos, sorrisos sinceros, bom humor, beleza interior, olhares profundos, beleza exterior e até mesmo talentos ocultos. Mas nenhum tem aquele espacinho entre os dentes, que você tem.
Me peguei te olhando de um jeito tão estranho. Senti aquele frio na barriga que já tinha esquecido que existia. Parece que, pela primeira vez em muito tempo, eu senti algo novo. Não apenas simulações pré-programadas de sensações conhecidas. E isso, meu bem, é um perigo.
Então, vamos esquecer que tudo isso aconteceu. Vamos dizer que não existe nada. Vamos viver como todas as outras pessoas. Vamos fingir.
Porque fingimento é melhor do que afeição, hoje em dia.
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